Faltam dois dias para encerrar a inscrição naquele curso que você quer fazer há anos. Você separou a noite para preencher o formulário. E então, num impulso inexplicável, decide que aquele é o momento perfeito para organizar a gaveta de temperos por ordem alfabética. Cominho, cravo, cúrcuma. A inscrição fica para amanhã. Amanhã vira depois de amanhã. E o prazo passa.
Quem nunca? A autossabotagem é esse fenômeno curioso em que a gente parece trabalhar contra os próprios planos, bem na hora em que eles estão quase dando certo. E o mais intrigante é que, por fora, parece só distração, preguiça ou falta de força de vontade.
O que chamamos de autossabotagem
Ela aparece de muitos jeitos. Às vezes discreta, às vezes escandalosa:
- Adiar justamente a tarefa que mais importa.
- Arrumar briga quando a relação está ficando boa.
- Gastar o dinheiro guardado para o projeto às vésperas de começar.
- Chegar atrasado à entrevista que você tanto queria.
- Abandonar algo no meio, logo depois do primeiro sinal de que estava indo bem.
O padrão é sempre parecido: uma parte de você quer muito uma coisa, e outra parte dá um jeito de impedir que ela aconteça. Daí vem a sensação estranha de ser, ao mesmo tempo, o motorista e o pneu furado.
Por que a gente atrapalha o próprio caminho
A resposta mais comum é dura consigo mesmo: "Eu sou fraco, não tenho disciplina". Mas a psicanálise propõe uma pergunta mais generosa e muito mais útil: o que essa sabotagem está protegendo?
Porque, por mais esquisito que pareça, ela costuma ter uma função. Algumas possibilidades que aparecem com frequência:
O medo de dar certo
Parece estranho temer o sucesso, mas ele traz consequências. Mais responsabilidade, mais visibilidade, a chance de decepcionar de uma altura maior. Às vezes também traz a sensação de ultrapassar alguém importante, como um pai ou uma mãe que não teve as mesmas chances. Freud observou que algumas pessoas adoecem justamente quando realizam um desejo antigo, como se não se sentissem autorizadas a desfrutar dele.
A sensação de não merecer
Quando lá no fundo existe a crença de que você não é bom o suficiente, ir bem vira uma ameaça: e se descobrirem? A sabotagem resolve o problema do jeito mais torto possível, confirmando a crença antes que alguém o faça. Essa sensação conversa muito com a síndrome do impostor, em que o sucesso parece um engano prestes a ser desmascarado.
A lealdade a uma história antiga
Às vezes a gente se mantém num lugar conhecido por fidelidade a quem fomos, ou ao lugar que a família nos reservou. "Na nossa casa ninguém nunca fez isso." Romper com esse roteiro pode dar uma culpa difícil de nomear.
Autossabotagem e repetição
Se você olhar para trás com honestidade, talvez perceba que a sabotagem não aparece uma vez só. Ela tem um estilo, um momento preferido, quase uma assinatura. Isso tem a ver com aquilo que a psicanálise chama de repetição: a tendência a voltar ao mesmo ponto, mesmo quando ele dói. Escrevi sobre isso ao falar de por que repetimos os mesmos padrões nos relacionamentos, e o raciocínio vale para trabalho, estudo, dinheiro e tudo mais.
Toda sabotagem carrega um recado. Antes de brigar com ela, vale tentar ler o que ela diz.
O que fazer com isso (sem virar mais uma cobrança)
A tentação é transformar a autossabotagem em mais um inimigo a ser vencido na base da força. Planilha, aplicativo de hábitos, despertador às cinco da manhã. Às vezes ajuda por umas semanas. Depois a gaveta de temperos chama de novo.
Uma alternativa é trocar a bronca pela curiosidade. Algumas perguntas que podem abrir caminho:
- O que aconteceria de ruim se isso desse certo?
- Quem eu seria se conseguisse? E quem ficaria para trás?
- Em que momento exato eu costumo travar?
- Essa voz que diz "não vai dar" fala com o sotaque de quem?
Não precisa ter as respostas agora. Às vezes só fazer a pergunta já muda um pouco o peso das coisas.
Um espaço para entender o que trava
A terapia é um bom lugar para isso porque, ali, a sabotagem pode aparecer e ser olhada sem julgamento. Inclusive na própria terapia, vale dizer: faltar à sessão na semana em que algo importante estava para vir à tona é um clássico. E, quando acontece, vira assunto, não motivo de vergonha.
Esse trabalho de entender por que você tropeça no próprio pé é uma das faces mais interessantes do autoconhecimento. Não promete que você nunca mais vai adiar nada, mas abre espaço para escolhas mais livres.
Se você se reconheceu nesse texto e quer olhar para isso com mais calma, me escreve aqui. Pode ser hoje mesmo, antes que a gaveta de temperos te chame.


