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relacionamentos · psicanálise

Por que repito os mesmos padrões nos relacionamentos?

Pessoas diferentes, mesmo final? Entenda por que a gente tende a repetir padrões nos relacionamentos e o que a psicanálise ajuda a enxergar nessa história.

Ilustração de um caminho em espiral num jardim, com pegadas que dão voltas e uma pequena saída lateral iluminada.

Você conhece a cena. A amiga chega animada, pede um café e anuncia: "Agora é diferente, ele é totalmente outro tipo". Três meses depois, mesma mesa, mesmo café, e a história termina igualzinha à anterior. O nome mudou, a profissão mudou, até o signo mudou. O roteiro, não.

Se você se reconheceu do lado de quem conta (e não de quem escuta), bem-vindo ao clube. Repetir padrões nos relacionamentos é uma das queixas mais comuns que chegam ao consultório. E vem quase sempre acompanhada de uma pergunta meio irritada: "Por que eu sempre escolho errado?".

O que é repetir padrões nos relacionamentos

Vale primeiro dar nome ao que se repete. Às vezes é o tipo de pessoa: alguém indisponível, alguém que precisa ser salvo, alguém que critica tudo. Às vezes é a posição que você ocupa: sempre a que cuida, sempre o que cede, sempre quem fica esperando a mensagem que não vem.

E às vezes o que se repete é o desfecho. Tudo vai bem até um certo ponto, e aí alguma coisa desanda no mesmo lugar de sempre. No terceiro mês, no primeiro conflito sério, quando a relação ameaça ficar séria demais.

Repara que nada disso é azar. Azar seria cair a mesma pedra do céu na sua cabeça cinco vezes. Quando a história se repete com personagens tão diferentes, vale desconfiar que o roteirista é alguém de casa.

De onde vem essa vontade de voltar ao mesmo lugar

Freud ficou bastante intrigado com isso. Ele percebeu que as pessoas não repetem só o que foi bom. Repetem também, e com uma insistência impressionante, o que doeu. Chamou esse movimento de compulsão à repetição.

Parece não fazer sentido, né? Ninguém em sã consciência sairia procurando sofrimento. E é justamente aí que está a pista: não é em sã consciência. Grande parte das nossas escolhas amorosas é guiada por algo que fica fora do nosso campo de visão. Se você quiser entender melhor essa parte, escrevi sobre o que é o inconsciente, explicado sem complicação, e ele ajuda muito a ler este texto.

De um jeito bem simples: as nossas primeiras relações (com quem cuidou da gente, com quem amamos e de quem dependemos quando éramos pequenos) deixam uma espécie de molde. Esse molde ensina o que é amor, o que é cuidado, o que se pode pedir e o que é melhor nem tentar. Depois, já adultos, a gente vai buscando o que é familiar. E familiar, muitas vezes, quer dizer conhecido, não necessariamente bom.

O conhecido tem um charme perigoso

Quem cresceu tendo que conquistar atenção pode sentir uma faísca enorme diante de alguém difícil de alcançar. A pessoa disponível, carinhosa, que responde a mensagem no mesmo dia? "Ah, sei lá, faltou química." Às vezes a tal química é só o reconhecimento de um território antigo.

Também existe uma esperança escondida em cada repetição. É como se uma parte da gente pensasse: "Dessa vez eu consigo mudar o final". Reencenar a história antiga com outro elenco, torcendo para que agora alguém diga a fala que faltou lá atrás.

Por que só entender não basta

Muita gente chega dizendo: "Eu já sei que repito, já li tudo sobre isso". E sabe mesmo. Consegue explicar o próprio padrão melhor que muito livro. Mesmo assim, na próxima vez, lá está de novo, dizendo sim para a mesma armadilha com outra roupa.

Isso acontece porque saber com a cabeça é uma coisa, e o que move a escolha é outra. A repetição não cede a um bom argumento. Ela vai perdendo força quando a gente consegue falar dela muitas vezes, em detalhes, e ir encontrando os fios que a ligam a outras partes da história. É um trabalho mais de tecelagem que de iluminação súbita.

A gente não repete porque é burro. Repete porque ainda está tentando resolver alguma coisa.

O que pode ajudar a sair do roteiro

Não tenho uma receita, e desconfiaria de quem tivesse. Mas tenho algumas observações que costumam abrir espaço:

  • Olhe para o ponto de virada. Em que momento a relação costuma desandar? O que você sente bem ali? Medo, tédio, sufoco, raiva?
  • Repare no que te atrai logo de cara. Aquela atração instantânea merece curiosidade, não obediência cega.
  • Escute as suas próprias frases. "Eu sempre", "comigo é assim", "todo homem", "toda mulher". Elas costumam carregar a história inteira.

Na análise, esse trabalho ganha um aliado curioso: a própria relação com o analista. Com o tempo, o jeito como você se vincula a quem te escuta começa a mostrar os mesmos traços. A pessoa que sempre teme ser abandonada pode sentir que eu vou desistir dela. Quem sempre cuida de todo mundo pode ficar preocupado em não me cansar. Isso se chama transferência, e longe de ser um problema, é uma chance de ver o padrão acontecendo ao vivo, num lugar seguro, onde dá para conversar sobre ele em vez de só sofrer com ele.

Um pouco de gentileza com você

Se você está cansado de terminar sempre do mesmo jeito, saiba que isso não faz de você alguém defeituoso. Faz de você alguém com uma história, e histórias podem ser relidas. Os padrões foram, em algum momento, a melhor forma que você encontrou de se proteger ou de amar.

O que muda com o tempo é que você vai ganhando mais liberdade de escolha. Talvez a faísca diante da pessoa indisponível continue aparecendo. A diferença é que você passa a notar, a rir um pouco de si mesmo e a escolher outra coisa. Falo mais desse universo na página sobre relacionamentos.

Se esse texto mexeu com alguma coisa aí dentro, e você quer olhar para os seus padrões com calma e sem julgamento, me chama por aqui. A gente conversa numa primeira sessão e vê, juntos, por onde começar.

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