Você sai do consultório do cardiologista com um papel na mão e uma sensação esquisita. O médico olhou o eletro, viu os exames, sorriu e disse que está tudo ótimo. Era para ser alívio. Mas uma parte de você pensa: "Então por que ontem à noite meu coração parecia querer sair pela boca?".
Essa cena é muito mais comum do que parece. Os sintomas físicos de ansiedade são reais, intensos e às vezes assustadores. E justamente por serem tão concretos, muita gente demora para desconfiar que eles podem estar ligados ao que se passa por dentro.
Os sintomas físicos de ansiedade mais comuns
A ansiedade gosta de se manifestar no corpo, e cada pessoa tem o seu repertório. Entre os mais frequentes:
- Coração acelerado, palpitação ou sensação de batimento falhando.
- Aperto no peito, falta de ar ou a impressão de não conseguir respirar fundo.
- Estômago embrulhado, enjoo, diarreia ou aquele "frio na barriga" que não passa.
- Tensão nos ombros, mandíbula travada, dor de cabeça no fim do dia.
- Tontura, formigamento nas mãos, suor frio.
- Cansaço que não melhora com descanso, insônia ou sono agitado.
Antes de qualquer coisa: se você sente algum desses sintomas, procure avaliação médica. Muitos deles também aparecem em condições que precisam de cuidado específico, e só um médico pode descartar isso. A terapia caminha junto, mas não substitui esse olhar.
Por que o corpo reage como se houvesse perigo
O nosso corpo tem um sistema de alarme muito antigo, feito para nos proteger de ameaças concretas. Diante de um perigo, ele acelera o coração, tensiona os músculos, desvia energia da digestão. Tudo para que a gente possa correr ou lutar.
O problema é que esse alarme não distingue muito bem um leão de uma reunião com a diretoria. Ou de uma conversa difícil que você está evitando. Ou de uma preocupação que você nem sabe direito qual é. Ele simplesmente dispara, e o corpo obedece.
E quando esse alarme toca o tempo todo, em volume baixo, o corpo vai acumulando tensão. Por isso tanta gente só percebe que está ansiosa quando a dor nas costas vira companheira fiel ou quando o estômago passa a reclamar todo santo dia.
Quando o corpo fala por você
Aqui entra uma ideia que a psicanálise trabalha desde o começo. Freud começou a sua pesquisa escutando pessoas com sintomas no corpo que a medicina da época não conseguia explicar. Ele percebeu que, muitas vezes, o corpo estava expressando algo que a pessoa não conseguia dizer com palavras.
Pensa assim: tem coisas que a gente engole. Uma raiva que não pode ser mostrada, uma tristeza que não tem espaço, um medo que parece bobo demais para ser falado. Essas coisas não somem. Às vezes elas encontram outro caminho para sair, e esse caminho pode ser o estômago, o peito, a garganta. Não por acaso a língua portuguesa está cheia de expressões como "engolir sapo", "nó na garganta" e "peso nas costas".
O corpo não sabe mentir. Quando a palavra falta, ele assume o recado.
Isso não quer dizer que o sintoma seja "coisa da sua cabeça", no sentido de inventado. Ele é real e dói de verdade. A questão é que, além de tratar o corpo, pode ser importante escutar o que ele está tentando comunicar.
E na hora em que tudo dispara?
Às vezes os sintomas vêm todos de uma vez, de forma intensa, com a sensação de que algo terrível vai acontecer. Isso pode ser uma crise de ansiedade, e ela costuma assustar muito, principalmente da primeira vez. Escrevi um texto específico sobre crise de ansiedade: o que fazer na hora e o que fazer depois, com algumas orientações práticas para atravessar esse momento.
Se em algum momento você não tiver certeza se é ansiedade ou algo físico, não hesite: procure um pronto-atendimento ou ligue para o SAMU no 192. E se a angústia vier acompanhada de pensamentos de morte ou vontade de se machucar, o CVV atende 24 horas, gratuitamente, pelo 188.
O que a terapia pode fazer pelos sintomas
A terapia não é um remédio para palpitação. O que ela oferece é um espaço para que aquilo que está sendo dito pelo corpo possa, aos poucos, ser dito com palavras. Muita gente se surpreende ao perceber que o aperto no peito aparecia sempre antes de certos encontros, ou que a dor de estômago tinha hora marcada: domingo à noite, véspera de segunda.
Esses fios vão aparecendo quando você fala livremente, sem precisar ter as respostas. E à medida que algumas coisas encontram palavra, é comum que o corpo vá podendo baixar a guarda um pouco. Sem promessa de prazo, cada um no seu ritmo. Falo mais sobre esse universo na página de ansiedade e angústia.
Se você anda sentindo que o seu corpo está gritando e quer entender o que ele tem a dizer, me chama por aqui. A gente marca uma conversa e começa a escutar esse recado juntos, com calma.


