Fale "Freud" numa roda de amigos e repare nas reações. Alguém vai fazer piada com charuto. Outro vai dizer que "tudo para ele era sexo". E sempre aparece aquele que garante, com a segurança de quem leu um vídeo de um minuto, que psicanálise é coisa do século passado. Eu acho graça, e entendo. Freud virou personagem, quase um meme.
Mas a pergunta merece uma resposta séria, ainda que leve: Freud ainda faz sentido hoje, num mundo de aplicativos, inteligência artificial e terapia por videochamada? Pelo que vejo nas sessões, a resposta curta é sim. A resposta longa é mais interessante.
O que Freud trouxe que ninguém tinha dito
A grande ideia de Freud foi propor que a gente não é dono absoluto da própria casa. Existe uma parte da mente que funciona sem pedir licença, guardando desejos, medos e lembranças que não conseguimos acessar diretamente. Ele chamou isso de inconsciente.
Parece óbvio hoje, porque a ideia se espalhou pela cultura. A gente fala em "ato falho", em "isso deve ser coisa da sua infância", em "você está projetando". Tudo isso é Freud, mesmo quando ninguém dá o crédito. Escrevi um texto só para explicar o que é o inconsciente, sem complicação, se você quiser se aprofundar.
Freud ainda faz sentido no dia a dia?
Faz, e em lugares bem cotidianos. Pense em quantas vezes você já:
- Chamou alguém pelo nome do ex, numa hora nada conveniente.
- Esqueceu justamente o compromisso que não queria ir.
- Jurou que não ia mais fazer algo e, na semana seguinte, fez de novo.
- Sonhou com uma coisa absurda que, pensando bem, tinha tudo a ver com o que você estava vivendo.
Cada um desses exemplos conversa com uma ideia freudiana. O ato falho, que revela o que a gente não pretendia dizer. O esquecimento que tem motivo. A repetição, que nos faz voltar ao que dói. Essa última eu explorei no texto sobre compulsão à repetição, porque ela ajuda a entender muitos ciclos que parecem sem saída.
Freud não inventou o inconsciente, apenas teve a coragem de escutar o que ele já estava dizendo.
O que ficou para trás (e tudo bem)
Ser honesto aqui faz parte do respeito pela psicanálise. Freud foi um homem do seu tempo, e algumas ideias dele carregam marcas daquela época, como certas visões sobre as mulheres e sobre a sexualidade que hoje são criticadas, inclusive por psicanalistas. Ele mesmo revisou suas teorias várias vezes ao longo da vida.
Também vale lembrar que muita coisa que circula por aí como "freudiana" é mais caricatura do que teoria. Ele nunca disse que tudo se resume a sexo, por exemplo. O que ele propôs foi levar a sério o desejo, essa força que nos move e que nem sempre combina com o que achamos que deveríamos querer. Dito assim, fica bem menos escandaloso e bem mais humano.
A psicanálise não parou em Freud. Ela continuou viva justamente porque muita gente depois dele discordou, ampliou, repensou. Uma teoria que não pode ser questionada vira dogma. A psicanálise, felizmente, nunca foi muito boa em ficar quieta.
O que continua vivo na prática
Se você entrar numa sessão de psicanálise hoje, vai encontrar coisas que Freud reconheceria e outras que o deixariam de sobrancelha levantada. Ele provavelmente estranharia a videochamada. Mas reconheceria o essencial.
A fala livre
A proposta continua sendo falar o que vier à cabeça, sem filtro e sem roteiro. Freud chamou isso de associação livre. Num mundo em que tudo é editado antes de ser postado, ter um lugar onde você pode falar sem revisar é quase um luxo.
A escuta atenta aos detalhes
O analista presta atenção no que você diz, mas também no jeito, nos tropeços, nas pausas, nas palavras que voltam. Nada disso exige divã, poltrona de couro ou barba branca.
A relação como ferramenta
Freud percebeu que a pessoa tende a reviver com o analista sentimentos de outras relações importantes. Ele chamou isso de transferência. Até hoje, essa é uma das ferramentas mais preciosas do trabalho, porque permite olhar para padrões antigos enquanto eles acontecem, ao vivo e num lugar seguro.
Por que isso importa para você
Talvez você não esteja nem um pouco interessado em teoria, e tudo bem. O que importa é que a psicanálise segue oferecendo algo raro: tempo e escuta para entender a própria história sem pressa de virar a página. Num mundo que pede respostas rápidas para tudo, isso faz diferença. Se quiser entender melhor essa abordagem, a página sobre psicanálise explica com mais calma.
E se a curiosidade sobre Freud é, na verdade, curiosidade sobre você mesmo (acontece bastante), a gente pode conversar sobre isso numa sessão. É só me mandar uma mensagem por aqui. Prometo não aparecer de charuto.


