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família · psicanálise

O que a infância deixa na vida adulta (e o que dá para fazer com isso)

O que vivemos cedo reaparece nas escolhas e nos medos. Uma conversa acolhedora sobre traumas de infância na vida adulta e o que dá para fazer com eles.

Uma mochila infantil antiga pendurada num cabide ao lado de um casaco adulto, iluminados pela luz suave de uma janela.

Tem cheiro que transporta a gente na hora. O bolo de laranja da avó, o desinfetante da escola, o perfume de alguém que já não está mais por perto. Num segundo você tem quarenta anos e, no outro, está com sete, sentado no degrau da cozinha. A memória é rápida assim. E nem sempre ela avisa que vai chegar.

A infância não fica para trás como uma cidade que a gente deixou. Ela vem junto, meio escondida na bagagem. Hoje quero conversar sobre isso: sobre os traumas de infância na vida adulta, mas também sobre as marcas mais sutis, aquelas que nem chegam a ganhar o nome de trauma e mesmo assim moldam muito do que somos.

Trauma é só o que foi grave?

Quando se fala em trauma, a gente costuma pensar em eventos extremos: violência, abuso, perdas repentinas. Eles existem, deixam marcas profundas e merecem todo o cuidado. Mas a psicanálise também presta atenção em outra coisa: experiências repetidas e silenciosas que, somadas, pesam.

Uma casa em que não se podia chorar. Pais tão ocupados que a criança aprendeu a não pedir nada. Um irmão que sempre era o preferido. Uma mudança de cidade que ninguém explicou. Para um adulto, pode parecer pouco. Para uma criança, que ainda não tem palavras nem recursos para entender, pode ser enorme.

A criança que você foi continua tentando entender o que aconteceu, mesmo quando o adulto já seguiu em frente.

Como os traumas de infância aparecem na vida adulta

Essas marcas raramente se apresentam como memória. Elas aparecem de lado, por outras portas. Alguns jeitos comuns:

  • Reações desproporcionais a situações pequenas, como pânico diante de um atraso ou raiva intensa com uma crítica leve.
  • Dificuldade de confiar, ou o oposto: confiar demais e rápido demais.
  • A sensação de que é preciso ser útil para ser amado.
  • Escolhas que se repetem, mesmo quando a pessoa jura que não quer mais aquilo.

Esse último ponto tem nome na psicanálise. A gente tende a repetir, sem perceber, situações que ficaram mal resolvidas lá atrás, quase como uma tentativa de dar a elas outro final. Escrevi sobre isso no texto sobre compulsão à repetição, que conversa muito com este.

O que os pais têm a ver com isso (e o que não têm)

Aqui vale um cuidado. Falar de infância não significa colocar os pais no banco dos réus. A maioria fez o que conseguiu com o que tinha, e muitos carregavam as próprias marcas. Ao mesmo tempo, reconhecer que algo doeu não é ingratidão. As duas coisas podem ser verdade juntas.

Muita gente, inclusive, só consegue olhar para a infância quando percebe que não precisa escolher entre amar e criticar. Falo mais sobre esse equilíbrio delicado no texto sobre relação com os pais na vida adulta.

Então dá para fazer alguma coisa com isso?

Dá. Não para apagar o passado (isso ninguém consegue, e desconfie de quem prometer), mas para mudar a relação com ele. Algumas ideias sobre como esse trabalho costuma acontecer.

Colocar em palavras

Freud percebeu algo simples e poderoso: aquilo que não pode ser lembrado e falado tende a voltar como sintoma, como ato, como repetição. Quando a experiência ganha palavras, ela pode ser pensada. E o que pode ser pensado assusta menos. Na terapia, você fala livremente, e as lembranças vão aparecendo no ritmo delas, às vezes de onde menos se espera.

Reconhecer a criança sem virar refém dela

Entender de onde vem um medo ajuda a sentir mais compaixão por si mesmo. Aquele pânico diante do silêncio do parceiro, por exemplo, pode fazer muito mais sentido quando você lembra das tardes em que esperava alguém que não chegava. A ideia não é ficar preso nessa história, e sim poder dizer: "isso foi lá, e eu estou aqui".

Respeitar o tempo

Mexer em lembranças antigas pode ser intenso. Não precisa ser tudo de uma vez, nem na ordem certa. Um bom processo respeita o seu ritmo e não força nada.

Um cuidado importante

Se você viveu situações de violência ou abuso, falar sobre elas pode trazer muita coisa à tona. Vale buscar acompanhamento cuidadoso e não atravessar isso sozinho. Se em algum momento surgirem pensamentos de morte ou de se machucar, ligue para o CVV no 188, que atende 24 horas, gratuitamente. Em emergência, o SAMU atende pelo 192. E, se a violência estiver acontecendo agora, contra uma mulher, o 180 funciona o tempo todo.

A infância não é uma sentença

O que você viveu cedo faz parte de quem você é, mas não decide sozinho quem você pode ser. Muitas vezes, o simples fato de entender por que você reage de certo jeito já abre uma pequena brecha para reagir diferente. Se quiser saber mais sobre esse caminho, a página de autoconhecimento traz algumas reflexões.

E se alguma lembrança andou batendo na porta enquanto você lia, talvez valha a pena escutá-la com companhia. Quando quiser, me chama por aqui e a gente conversa com calma.

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