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Sinais de burnout que a gente costuma ignorar

Cansaço que o fim de semana não resolve, irritação com tudo, domingo à noite pesado. Conheça os sinais de burnout que a gente costuma empurrar com a barriga.

Uma vela quase no fim sobre uma mesa de escritório, com a cera escorrida e uma janela mostrando o céu ainda escuro de madrugada.

Você abre o e-mail, lê a primeira linha e sente o corpo inteiro dizer "não". Nada de grave na mensagem. É só um "conseguimos alinhar rapidinho?". Mesmo assim, aquilo pesa como se fosse uma mudança de apartamento. Se essa cena parece familiar, senta aqui um pouquinho comigo.

Quero conversar sobre os sinais de burnout que passam batido. Não os dramáticos, de filme, em que a pessoa desaba no meio do escritório. Falo dos pequenos, que a gente explica com "é só uma fase", "é o fim do trimestre", "depois das férias melhora". E que vão ficando.

O cansaço que o fim de semana não resolve

Todo mundo se cansa. O cansaço comum tem uma característica simpática: ele passa. Você dorme, vê uma série boba, come uma pizza, e na segunda já está mais ou menos inteiro. O esgotamento tem outra cara. Você descansa e acorda cansado. Tira férias e passa a primeira semana se recuperando e a segunda temendo a volta.

Esse é talvez o sinal mais importante e o mais ignorado. A gente costuma achar que o problema é falta de descanso, então tenta descansar mais. Só que, quando a fonte do desgaste continua ali, o descanso vira um balde tirando água de um barco furado.

Sinais de burnout que parecem outra coisa

Muitos sinais de esgotamento se disfarçam. Eles chegam com roupa de defeito de personalidade, de preguiça, de "eu que sou assim mesmo". Alguns que escuto com frequência:

  • Irritação desproporcional. O colega que respira alto, a fila do mercado, a pessoa que manda áudio de quatro minutos. Coisas que antes passavam agora parecem ofensas pessoais.
  • Cinismo. Aquele "tanto faz" que vai tomando conta. O trabalho que já teve sentido vira só uma lista de tarefas, e as pessoas viram obstáculos.
  • Esquecimentos bobos. Entrar na cozinha e não lembrar o que foi fazer, ler o mesmo parágrafo três vezes, esquecer a senha que você digita todo dia.
  • O domingo à noite pesado. Um aperto que começa lá pelas cinco da tarde e transforma o resto do domingo numa sala de espera.
  • O corpo reclamando. Dor nas costas, gastrite, insônia, aquela gripe que não vai embora. O corpo às vezes fala o que a boca não tem coragem.

Nenhum desses sinais, sozinho, fecha um diagnóstico, e nem é esse o objetivo aqui. A questão é o conjunto e a duração. Quando vários aparecem juntos e se arrastam por meses, vale prestar atenção.

Por que a gente ignora

Aqui entra um pedaço que a psicanálise ajuda a enxergar. A gente não ignora esses sinais por distração. Muitas vezes ignora porque reconhecer o cansaço mexe com algo importante: a imagem que temos de nós mesmos.

Para muita gente, ser quem dá conta virou identidade. A pessoa confiável, a que resolve, a que nunca deixa a peteca cair. Admitir que não está dando conta parece trair essa imagem, e às vezes trair também uma história antiga. Talvez lá atrás, na infância, ser útil fosse a forma mais segura de ser amado. Isso fica gravado sem que a gente perceba, naquela parte da mente que a psicanálise chama de inconsciente.

Tem gente que só se dá permissão para parar quando o corpo assina o atestado.

Também existe o lado prático, claro. Boletos não pagam a si mesmos, e ninguém está sugerindo largar tudo e ir vender artesanato na praia (a não ser que seja o seu sonho, aí a gente conversa). O ponto é outro: entender o que te prende num ritmo que está te consumindo, além das contas.

O que fazer quando os sinais acendem

Não vou te dar uma lista de cinco passos para sair do burnout, porque isso não existe. Mas tem algumas coisas que costumam ajudar a começar.

Leve o corpo a sério

Se o cansaço é intenso e persistente, procure um médico. Esgotamento pode vir acompanhado de questões que precisam de avaliação clínica, e outras condições do corpo também causam cansaço. Terapia não substitui essa consulta. As duas coisas caminham juntas muito bem.

Repare no que você diz para si

Preste atenção nas frases automáticas. "Não posso parar agora." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Depois eu descanso." Elas contam muito sobre as regras invisíveis que você segue. E regras invisíveis, quando a gente consegue enxergar, ficam um pouco menos mandonas.

Fale com alguém

Esgotamento adora isolamento. Quanto mais cansado, menos vontade de conversar, e quanto menos conversa, mais o cansaço parece só seu. Se você está em dúvida se já é hora de buscar ajuda, escrevi um texto sobre como saber se preciso de terapia que pode servir de bússola.

E, se em algum momento o peso ficar tão grande que surjam pensamentos de sumir ou de não querer mais viver, não espere. Ligue para o CVV no 188, que atende 24 horas e de graça. Em emergência, o SAMU atende no 192.

Esgotamento também é um recado

Gosto de pensar no burnout como uma mensagem que demorou muito para ser lida. Ele fala de limites atravessados, de desejos deixados de lado, de um jeito de viver que talvez tenha funcionado por um tempo e agora cobra a conta. Na terapia, a ideia é ler essa mensagem com calma, sem pressa de voltar correndo para o mesmo lugar.

Escrevi mais sobre esse tema na página de esgotamento, se quiser continuar lendo. E se você se reconheceu em vários desses sinais e quer conversar sobre isso com alguém que escuta sem julgar, me chama por aqui. Sem pressa e sem cobrança, que cobrança você já tem de sobra.

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