Um e-mail de três linhas. Só isso. Mas você já trocou "Prezado" por "Olá", depois voltou para "Prezado", tirou uma vírgula, colocou de novo, releu em voz baixa e agora está há vinte minutos decidindo se termina com "Abraço" ou "Att.". Enquanto isso, a lista de tarefas do dia olha pra você com uma cara de decepção.
O perfeccionismo tem essa habilidade curiosa: ele se apresenta como cuidado, capricho, responsabilidade. E de fato pode ter um pouco disso. Só que, para muita gente, ele vira um chefe interno que nunca dá folga, nunca elogia e sempre acha que dava para ter feito melhor.
Quando o capricho vira cobrança
Gostar de fazer as coisas bem feitas é ótimo. O problema começa quando o "bem feito" nunca chega. Você entrega o projeto, recebe elogio, e a única coisa que a sua cabeça registra é o pequeno erro no slide doze.
Alguns sinais de que o perfeccionismo passou do ponto:
- Você adia tarefas não por preguiça, mas por medo de não fazer à altura.
- Elogios escorregam, críticas grudam.
- Descansar só parece permitido depois que tudo estiver impecável (ou seja, nunca).
- Pedir ajuda soa como confessar incompetência.
Repara no primeiro item, porque ele confunde muita gente. Perfeccionista procrastina, e muito. Afinal, se a obra só pode sair perfeita, é mais seguro nem começar.
De onde vem o perfeccionismo
Cada história é uma, mas algumas pistas aparecem com frequência. Às vezes a pessoa cresceu num ambiente em que o amor parecia vir condicionado ao desempenho: a nota boa recebia carinho, a nota mediana recebia silêncio. Às vezes foi o contrário, ninguém olhava muito, e ser excelente era a forma de finalmente ser visto.
Na psicanálise, a gente fala de uma instância interna que funciona como uma voz crítica, uma espécie de juiz que mora dentro da gente. Freud chamou isso de supereu. Todo mundo tem um, e ele é importante para a vida em sociedade. Mas em algumas pessoas esse juiz é especialmente severo. Ele não aceita atenuante, não reconhece esforço e muda a régua toda vez que você chega perto dela.
E aqui tem um detalhe interessante: o perfeccionismo muitas vezes protege de algo. Se tudo estiver perfeito, ninguém vai me criticar, ninguém vai me rejeitar, ninguém vai descobrir que eu não sou tudo isso. Essa última parte, aliás, tem parentesco próximo com a síndrome do impostor, quando o sucesso parece um engano. Os dois costumam andar de mãos dadas.
O juiz interno nunca fica satisfeito. Esse é o emprego dele, e não precisa ser o seu.
O preço que ninguém coloca na planilha
O perfeccionismo cobra caro, e a conta chega aos poucos. Primeiro vem o cansaço de revisar tudo três vezes. Depois a dificuldade de delegar, porque "ninguém faz do jeito certo". Depois a sensação de estar sempre atrasado, mesmo trabalhando mais que todo mundo.
E aí vem um paradoxo: parar se torna insuportável. Um domingo sem fazer nada dá uma coceira por dentro, uma culpa difusa, como se você estivesse devendo algo para alguém. Se isso te soa conhecido, escrevi sobre a culpa por descansar e por que parar parece proibido. Quando essa engrenagem roda por muito tempo, o esgotamento costuma bater na porta.
Nos relacionamentos, a régua também aparece. Às vezes virada para o outro, que nunca está à altura. Às vezes virada para si, com aquela sensação de que é preciso ser impecável para merecer afeto.
Afrouxar a régua sem jogar tudo para o alto
Muita gente tem medo de mexer no perfeccionismo porque acha que vai virar uma pessoa largada. Fique tranquilo: ninguém sai da terapia entregando relatório com erro de português de propósito. A ideia é outra.
Trata-se de ir percebendo de quem é essa voz que exige tanto. Será que ela é sua mesmo? Ou é o eco de alguém, de uma época, de uma expectativa que ficou grudada? Quando a gente consegue escutar essa voz com alguma distância, ela perde um pouco o tom de verdade absoluta.
Algumas experiências pequenas
Fora do consultório, dá para brincar com algumas coisas. Mandar o e-mail na terceira revisão, e não na décima. Reparar no que acontece por dentro quando algo sai "só bom". Anotar, no fim do dia, uma coisa que você fez razoavelmente e que deu certo mesmo assim. Encare tudo isso como experiência. Se não der, tudo bem também.
O bom suficiente também é bonito
Existe uma liberdade enorme em descobrir que dá para ser amado, respeitado e competente sem ser perfeito. Que o erro no slide doze não define ninguém. Que a vida cabe em versões imperfeitas, e muitas delas são as melhores que a gente tem.
Se você sente que esse juiz interno anda falando alto demais, a gente pode conversar sobre ele com calma, sem cobrança e sem nota no final. É só me chamar por aqui, do jeito que der, mesmo que a mensagem saia sem revisão.


