Lembra daquela lista que você fez, nem que fosse só de cabeça, lá pelos 20 anos? Aos 30 eu vou ter meu apartamento. Vou estar casado, ou pelo menos com alguém legal. Vou trabalhar com algo que amo. Vou ter conhecido a Europa, ter um cachorro e saber fazer imposto de renda sem chorar.
E aí os 30 chegaram. Talvez você more de aluguel, tenha terminado um namoro longo, esteja no terceiro emprego que não é bem o que queria. E o cachorro, no máximo, é o do vizinho, que late às seis da manhã. Se esse descompasso entre o plano e a vida te pegou de jeito, é bem possível que você esteja atravessando o que se costuma chamar de crise dos 30.
O que é essa tal crise dos 30
Não existe um relógio interno que dispara no aniversário. Mas os 30 têm um peso simbólico enorme na nossa cultura. É como se fosse a idade em que a vida deixa de ser ensaio. A gente olha para trás e mede a distância entre quem achava que seria e quem é.
E a régua costuma ser cruel. Ela quase sempre pertence ao colega da faculdade que posta a casa nova, da prima que já tem dois filhos, do amigo que largou tudo para morar na praia e parece feliz em todas as fotos. O Instagram, convenhamos, é uma vitrine de melhores momentos. Ninguém posta a louça de três dias.
A crise aparece de vários jeitos. Às vezes é uma tristeza difusa no domingo à noite. Às vezes é uma vontade urgente de mudar tudo: de cidade, de carreira, de corte de cabelo. Às vezes é uma sensação de estar atrasado numa corrida que você nem lembra de ter se inscrito.
De quem era mesmo aquele plano?
Aqui mora uma pergunta que eu acho das mais interessantes: de onde veio aquela lista? Quando a gente olha com calma, muitos desses objetivos não nasceram exatamente de nós. Vieram dos pais, da família, da escola, do que se espera de uma pessoa "bem-sucedida".
A psicanálise tem uma palavra para o que realmente nos move: desejo. E o desejo tem esse jeito curioso de não coincidir com o que a gente acha que deveria querer. Você pode ter conquistado todos os itens da lista e mesmo assim sentir um vazio. Ou pode não ter conquistado quase nenhum e perceber que, no fundo, nem queria tanto assim.
Parte disso acontece longe da nossa consciência. Se você quiser entender melhor esse território, escrevi sobre o que é o inconsciente de um jeito bem simples. Ele ajuda a explicar por que a gente às vezes corre atrás de coisas que não fazem sentido e foge de outras que fariam.
Talvez a crise não diga que você está atrasado. Talvez diga que você estava correndo na pista errada.
Nem tudo precisa ser decidido agora
Uma armadilha comum é transformar a crise em urgência. Pedir demissão na segunda, terminar o relacionamento na terça, comprar passagem só de ida na quarta. Às vezes mudanças grandes são mesmo necessárias. Mas, quando nascem do desespero de apagar o incômodo, costumam levar o incômodo junto na mala.
Antes de decidir o que fazer, vale entender o que está acontecendo. Algumas perguntas que podem acompanhar você nesse período:
- O que me incomoda é a minha vida ou a comparação com a vida dos outros?
- Se ninguém fosse ver, o que eu mudaria? E o que manteria?
- Que parte do plano antigo ainda me emociona quando penso nela?
Não precisa responder de uma vez. Essas perguntas funcionam melhor quando ficam rodando um tempo, sendo pensadas e repensadas, do que quando viram prova de múltipla escolha.
A crise como uma revisão de rota
A palavra crise assusta, mas ela também carrega a ideia de ponto de virada. É o momento em que o jeito antigo de viver começa a ficar apertado, como uma calça que você insiste em usar mesmo sabendo que já não serve. Desconfortável? Bastante. Mas é também um convite para costurar algo mais parecido com você.
Muita gente me conta que, olhando de longe, a fase mais confusa dos 30 foi justamente a que permitiu escolhas mais verdadeiras. Isso não acontece por mágica, nem num prazo definido. Acontece quando a pessoa se dá o direito de parar e escutar o que está sentindo, em vez de só se cobrar.
Tenho uma página sobre crises de sentido que fala mais desse momento em que a vida parece pedir uma revisão. E se a angústia estiver pesada demais, a ponto de surgirem pensamentos de desistir de tudo no sentido mais literal, procure ajuda já: o CVV atende pelo 188, a qualquer hora.
Você não está atrasado para a sua própria vida
Se tem uma coisa que eu gostaria que você levasse deste texto é isto: não existe cronograma oficial. A vida não é uma corrida com linha de chegada aos 30, nem aos 40, nem aos 50. Cada um tem o seu ritmo, as suas voltas e os seus desvios, e alguns desvios acabam virando o caminho principal.
Se você está nessa encruzilhada e quer pensar sobre ela com alguém do lado, sem pressa e sem julgamento, me chama por aqui. A gente pode conversar sobre o plano antigo, o desejo de agora e o que faz sentido construir daqui para a frente.


