Se eu tivesse um real para cada vez que alguém me perguntou "mas isso dura quanto tempo?" logo no primeiro contato, provavelmente já teria trocado de notebook. E olha, a pergunta é ótima. Ninguém gosta de entrar numa coisa sem saber quando ela acaba, ainda mais quando envolve tempo, dinheiro e aquela coragem de falar de si.
Então vou tentar responder com honestidade a pergunta sobre quanto tempo dura a terapia. Já adianto que não vai ter um número mágico no final. Mas vai ter uma explicação de por que ele não existe, e isso talvez seja mais útil.
Quanto tempo dura a terapia, afinal?
Depende. Eu sei, é a resposta mais irritante do mundo, quase tão irritante quanto o "tá chegando" do motorista de aplicativo parado no mesmo lugar do mapa há dez minutos. Mas é verdade.
Tem gente que vem por uma questão pontual, uma decisão difícil ou um momento de crise, e sente que fez o que precisava em alguns meses. Tem gente que fica anos, porque a análise virou um espaço importante de pensar a própria vida. E tem todo tipo de caminho no meio.
Na abordagem que eu sigo, de orientação psicanalítica, a gente não trabalha com um número fechado de sessões nem com um protocolo de etapas. O processo acompanha o que vai aparecendo. E o que aparece costuma ser bem diferente do que a pessoa achava que vinha tratar.
Por que não dá para prometer um prazo
Imagina que você chega dizendo que quer entender por que está tão ansioso no trabalho. Ótimo ponto de partida. Aí, conversando, aparece que essa ansiedade tem a ver com uma cobrança antiga, que tem a ver com o jeito como você se relaciona com figuras de autoridade, que tem a ver com a sua história familiar. Cada fio puxa outro.
Ninguém consegue saber de antemão quantos fios vão aparecer, nem quanto tempo cada um precisa para ser olhado. Quem promete resolver tudo em oito sessões está, no mínimo, sendo otimista. Eu prefiro não prometer o que não posso cumprir.
Terapia tem começo combinado e fim construído no caminho.
O que costuma influenciar a duração
Mesmo sem prazo fixo, algumas coisas costumam pesar:
- O motivo da procura. Uma questão bem localizada tende a pedir menos tempo do que um mal-estar que atravessa a vida toda.
- A frequência das sessões. O ritmo semanal, por exemplo, dá continuidade ao trabalho. Sessões muito espaçadas podem deixar o processo mais lento.
- O que você quer da terapia. Aliviar um sofrimento agudo é uma coisa. Conhecer-se mais a fundo é outra. As duas são legítimas e têm ritmos diferentes.
- A vida acontecendo. Às vezes, no meio do processo, chega uma perda, uma mudança, um nascimento. E a terapia acompanha.
"E se eu ficar dependente?"
Esse é um medo que aparece muito, quase sempre junto com a pergunta sobre o tempo. É como se a pessoa imaginasse que vai entrar e nunca mais conseguir sair, tipo academia com plano anual.
A ideia de uma análise é justamente o contrário: ajudar você a ter mais autonomia em relação ao seu próprio sofrimento, não menos. Com o tempo, a pessoa começa a fazer sozinha algumas das perguntas que fazia em sessão. Percebe os próprios padrões mais cedo. Isso não significa que precise sair correndo, mas significa que a relação com a terapia vai mudando.
Se esse e outros receios estão te travando, talvez você se identifique com o texto sobre as dúvidas que quase todo mundo tem antes de começar terapia. A pergunta sobre a duração está longe de ser a única.
Quem decide quando termina?
Você. Sempre. A terapia é um compromisso que você pode encerrar quando quiser, sem precisar pedir licença.
Dito isso, o fim costuma ser mais rico quando é conversado. Às vezes a vontade de parar aparece num momento importante, justo quando algo difícil está vindo à tona. Vale falar sobre ela em sessão: pode ser hora mesmo de encerrar, ou pode ser um jeito de fugir de algo que estava começando a fazer sentido. Na maioria das vezes, a gente descobre junto.
E muitas pessoas terminam um ciclo, ficam um tempo fora e, anos depois, voltam por outro motivo. Isso também é uma forma de usar a psicoterapia: como um recurso que está ali quando você precisa.
Uma pergunta que vem antes
Às vezes, por trás do "quanto tempo dura", existe outra dúvida: será que eu preciso mesmo disso? Se essa é a sua, o texto sobre como saber se preciso de terapia pode ajudar a pensar.
E se você quiser começar sem saber quando vai terminar (que é, aliás, como quase todo mundo começa), me chama por aqui. A primeira conversa serve justamente para a gente se conhecer e ver, sem compromisso, se faz sentido seguir junto.


