Tem um detalhe pequeno que muita gente me conta depois de uma demissão: o crachá. Ou o login. Aquele dia em que você tenta entrar no sistema por puro hábito e aparece "usuário inválido". É uma mensagem técnica, fria, de duas palavras. E, mesmo assim, pode doer como uma porta batendo na cara.
Perder o emprego mexe com muito mais do que o salário. Mexe com a rotina, com os vínculos, com a imagem que a gente tem de si. Por isso, quando alguém me pergunta como lidar com demissão, eu costumo começar dizendo uma coisa que nem sempre se ouve por aí: o que você está sentindo pode ser um luto.
Por que a demissão dói tanto
A gente passa boa parte da vida acordada no trabalho. Ali estão os colegas do café, as piadas internas, o grupo que reclamava junto da reunião que podia ser um e-mail. Ali também está uma parte importante de quem a gente é. Quando alguém pergunta "o que você faz?", a resposta quase sempre é o cargo.
Então, quando o trabalho acaba de forma abrupta, vai embora, junto com o contrato, um pedaço da identidade, um lugar no mundo, uma estrutura que organizava os dias. E isso pode trazer uma mistura confusa de sentimentos.
- Vergonha, como se fosse um fracasso pessoal, mesmo quando foi um corte em massa.
- Raiva, da empresa, do chefe, de si mesmo, às vezes de todo mundo ao mesmo tempo.
- Medo, das contas, do futuro, de não conseguir outra coisa.
- Alívio, sim, alívio, quando o trabalho já fazia mal. E depois, culpa por sentir alívio.
Tudo isso pode conviver no mesmo dia, até na mesma hora. Não tem nada de errado com você por sentir tanta coisa junta.
Como lidar com demissão olhando para ela como luto
Na psicanálise, falamos em trabalho do luto. É o processo, lento e nada linear, de aceitar que algo que fazia parte da nossa vida não está mais lá. Freud pensou isso a partir da morte de pessoas queridas, mas a ideia vale para outras perdas importantes: um relacionamento, uma cidade, um projeto, um emprego.
Esse trabalho leva tempo. Tem dias em que tudo parece resolvido e dias em que uma notificação do LinkedIn derruba você. Não existe ordem certa nem prazo. Escrevi mais sobre isso no texto luto: não existe jeito certo de sofrer uma perda, e muito do que está lá serve também para essa situação.
Pensar a demissão como luto ajuda por um motivo simples: dá permissão. Permissão para ficar triste sem achar que é "drama". Para sentir falta de um lugar que, às vezes, nem era tão bom assim. Para não estar pronto para mandar currículo no dia seguinte.
Junto com o crachá, às vezes vai embora um jeito de se reconhecer no espelho.
O que costuma atrapalhar
A pressa de "dar a volta por cima"
Tem muita gente bem-intencionada dizendo "foi livramento", "fecha uma porta, abre uma janela", "aproveita para descansar". Pode até ser verdade lá na frente. Mas, ouvidas no primeiro mês, essas frases podem soar como um pedido para você não sentir o que está sentindo.
Medir o próprio valor pelo emprego
Quando a identidade está muito colada ao trabalho, a demissão vira uma sentença sobre a pessoa inteira. Mas você não é o seu cargo. Você é alguém que tinha aquele cargo, e que continua sendo alguém sem ele.
Se isolar
A vergonha faz a gente sumir. Parar de responder o grupo dos amigos, evitar o almoço de família para não ouvir "e o trabalho?". Faz sentido querer se proteger, mas o isolamento costuma deixar tudo mais pesado.
E depois, o que vem?
Em algum momento, quando a poeira começar a baixar, pode aparecer espaço para outras perguntas. Eu queria mesmo aquele trabalho? O que me fazia levantar de manhã ali? O que eu gostaria de fazer se não tivesse tanto medo?
Para algumas pessoas, a demissão acaba abrindo caminho para repensar a carreira inteira. Se esse é o seu caso, talvez goste do texto sobre mudar de carreira e o medo, o desejo e a coragem no meio do caminho. Para outras, a vontade é simplesmente encontrar algo parecido e seguir. As duas coisas são legítimas.
O importante é que essa decisão não seja tomada só no susto. Nem no desespero de provar algo para alguém, nem no impulso de fugir da dor o mais rápido possível.
Quando pedir ajuda
Se a tristeza estiver paralisando a vida, se o sono e o apetite mudaram muito, ou se você percebe que está difícil sair desse lugar, vale buscar apoio. A terapia pode ser um espaço para atravessar esse luto com mais calma, olhando para o que foi perdido e para o que ainda está vivo em você. A página sobre luto e perdas fala um pouco mais desse tipo de acompanhamento.
E se em algum momento aparecerem pensamentos de morte ou de se machucar, procure ajuda imediatamente: o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e o SAMU pelo 192.
Se você está vivendo o fim de um trabalho e quer um lugar para falar disso sem ouvir "foi livramento", me chama por aqui. A gente conversa no seu tempo.


