Para escolher onde cortar o cabelo, você pergunta para três amigas, olha as fotos do salão, lê os comentários e, mesmo assim, entra meio desconfiado na primeira vez. Agora imagina escolher a pessoa com quem você vai falar das coisas mais íntimas da sua vida. Não é à toa que tanta gente trava nessa etapa.
Saber como escolher um terapeuta não é óbvio, e ninguém ensina isso na escola. Então resolvi escrever o que eu diria a um amigo que me perguntasse, com sinceridade e sem puxar a sardinha para nenhum lado (nem para o meu).
Antes de tudo: você já decidiu que quer começar?
Às vezes a dificuldade de escolher um terapeuta esconde outra dúvida, anterior: "Será que eu preciso mesmo?". Se você está nesse ponto, talvez valha ler antes sobre como saber se preciso de terapia. Spoiler: ninguém precisa estar no fundo do poço para merecer um espaço de escuta.
Se você já decidiu, ótimo. Vamos ao que observar.
Como escolher um terapeuta: o que olhar antes de marcar
A abordagem
Existem várias formas de fazer terapia, e elas trabalham de jeitos bem diferentes. Algumas são mais diretivas, com exercícios e tarefas. Outras, como a psicanálise, apostam na fala livre e na escuta do que aparece nas entrelinhas, sem roteiro definido. Nenhuma é melhor para todo mundo. Vale ler um pouco sobre cada uma e perceber qual conversa mais com o que você procura. Se quiser entender melhor o que é a psicoterapia do jeito que eu trabalho, deixei uma explicação por aqui.
A formação
Pergunte, sem constrangimento, onde a pessoa se formou, se faz supervisão, se segue estudando. Um bom profissional não se ofende com essa pergunta. Pelo contrário: costuma gostar de quem chega curioso.
A logística
Valor, horário, frequência das sessões, formato presencial ou online. Parece detalhe, mas não é. Uma terapia que não cabe na sua rotina ou no seu bolso tende a virar mais uma fonte de estresse. Pode perguntar tudo isso logo no primeiro contato.
A primeira sessão: o que observar
Muita gente chega à primeira sessão achando que é ela quem está sendo avaliada. Mas você também está avaliando, e tem todo o direito. Escrevi um texto inteiro sobre o que acontece na primeira sessão de psicanálise, caso queira chegar com menos mistério na cabeça.
Algumas coisas que eu prestaria atenção:
- Você se sentiu escutado, ou a pessoa falou mais do que ouviu?
- Houve espaço para as suas dúvidas sobre como funciona?
- O sigilo ficou claro?
- Você saiu com vontade de voltar, mesmo que um pouco nervoso?
Não precisa sair encantado. Às vezes a primeira sessão é estranha, mexe com coisas difíceis, deixa a gente cansado. Isso é normal. O que importa é uma sensação básica de respeito e de que ali existe um lugar possível para você.
Sinais de alerta (e eles valem em qualquer abordagem)
Algumas coisas merecem atenção redobrada:
- Promessa de cura ou de resultado em poucas sessões.
- Julgamento moral sobre a sua vida, suas escolhas, sua religião ou sua sexualidade.
- O terapeuta falando demais de si mesmo, como se a sessão fosse dele.
- Quebra de sigilo, comentários sobre outros pacientes.
- Qualquer proposta de relação fora do consultório, seja amizade, negócio ou romance.
- Orientação para começar ou parar remédio por conta própria, sem médico envolvido.
Se algo assim acontecer, você pode e deve ir embora. Isso não é ingratidão nem fracasso seu.
Você pode escolher seu terapeuta com o mesmo cuidado com que escolheria alguém para segurar algo frágil seu.
E depois de alguns meses?
Aqui mora uma nuance importante. Às vezes a terapia fica difícil, você sente raiva do terapeuta, acha que nada está mudando, tem vontade de desistir. Isso nem sempre significa que a escolha foi errada. Na psicanálise, esses sentimentos muitas vezes fazem parte do processo: a gente chama de transferência quando a relação com o analista começa a reproduzir emoções de outras relações importantes. E falar sobre isso na sessão costuma ser riquíssimo.
A dica de irmão mais velho é: antes de sair, fale. Diga que está incomodado, que acha que não está andando, que ficou chateado com algo. Um bom terapeuta recebe isso sem se defender, e muitas vezes é aí que o trabalho dá um salto. Se depois dessa conversa você ainda sentir que não é ali, tudo bem trocar. Faz parte.
Escolher um terapeuta é um pouco como experimentar um sapato que você vai usar para caminhar longe. Vale testar, sentir, perguntar. E vale lembrar que não existe escolha perfeita, só escolhas possíveis, que vão sendo confirmadas ou revistas com o tempo.
Se quiser saber mais sobre quem eu sou e como trabalho, tem um pouco da minha história na página sobre mim. E se fizer sentido para você, me manda uma mensagem por aqui. A gente marca uma primeira conversa, você me faz todas as perguntas que quiser e decide com calma.


